sábado, 3 de novembro de 2007

Che, segungo a Veja

"A imprensa do teu país, o Brasil, é a mais tacanha que existe."
(Gabriel García Márquez dirigindo-se a jornalista Ana Luiza Moulatlet)

Que a veja e toda a nossa imprensa é podre e escrota, isso eu já sabia. Só não podia imaginar que para exercer a sua podridão, seria capaz de abolir completamente as diretrizes mais primárias do mínimo jornalismo. Digo mínimo para não dizer bom. Não sou jornalista. Meus amigos amigos jornalistas que me corrijam, mas imagino que um bom jornalismo é pautado pela imparcialidade, apartidarismo e aquilo que julgo mais importante: pluralismo.

Nossa grande imprensa empresarial não tem nenhuma destas três características. Os grupos dos Marinho, dos Cívita e o grupo Bandeirantes são os maiores inimigos da democracia por exercerem a verdadeira "fabricação de consenso". Criticam, por exemplo, Cuba por não ter liberdade de imprensa, confundindo liberdade de imprensa, com imprensa privada e omitindo que o mesmo (ou pior) ocorre no Brasil. Pois a uniformidade é igualmente anti-democrática.

Hoje, se você lêu ou assistiu a um, leu ou assistiu a todos.

Neste ponto, costumam me cutucar dizendo que a Caros Amigos também não é imparcial. Porém na Caros Amigos eu ainda posso encontrar pluralismo. Encontro, por exemplo, numa mesma edição, ataques ferozes, contundentes e muito bem embasados (ignorados pela imprensa) ao governo do Lula e também análises e críticas positivas. O algoz é o José Arbex. A advogada do diabo é a Marilene Felinto.

Tanto o apontamento das inúmeras falhas e dos acertos não fazem parte da ladainha do PM Partido da Mídia. Não se lê, nem se ouve, nem se assiste em lugar nenhum.
Felizmente agora temos o Le Monde Diplomatique Brasil como mais uma alternativa de leitura no meio de tanto "concordismo". É curioso, aliás, observar um texto da veja sobre o Che, e um texto do Diplô sobre o Che. Um texto da veja sobre Chávez, um texto do Diplô sobre o Chávez.
A veja chega a ser caricata de tão editorialista e tendenciosa. O Diplô presa pela escuta aos estudiosos, pela divergência, traz bibliografia sobre o assunto. Enfim. É outro nível.

Enfim, a veja escutou dois historiadores para escrever a matéria. Ambos americanos.

É possível escrever uma biografia negativa sobre o Che, sim.
Assim como também é possível escrever uma biografia positiva sobre o Edir Macedo.
Como se fez recentemente.

O texto:

Ricardo Kauffmann

A abordagem da revista Veja sobre o mito e o homem Ernesto Che Guevara, no decorrer dos anos, consiste numa ótima oportunidade de observação dos movimentos da mídia. Sugiro aqui uma visita comparada a duas reportagens da publicação sobre o assunto.

Uma foi matéria de capa há duas edições, intitulada "Che: há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa", assinada pelos jornalistas Diogo Schelp e Duda Teixeira. A outra foi publicada há dez anos, sob o título: "O triunfo final de Che".

É assinada pela então repórter da casa Dorrit Harazim. O texto está disponível atualmente no site da editora Abril na internet, no endereço: http://veja.abril.com.br/090797/p_088.html

Há congruências entre as duas reportagens. Ambas registram aniversários redondos da morte do guerrilheiro. Buscam causas para a projeção mitológica do Che. E fazem referência a algumas mesmas passagens do líder.

Terreno mais vasto, no entanto, é o das incongruências, diferenças de tratamento e visões antagônicas - a respeito do personagem central - que as duas matérias explicitam.

A atual possui caráter predominantemente dissertativo. Não identifica de onde os autores apuraram as informações, o que leva a crer que a matéria foi feita da redação. Parte de tese própria segundo a qual o mito de Che é uma farsa produzida pela "máquina de propaganda marxista", diz o texto. E se destina a comprová-la.

A de 1997 foi apurada na Bolívia e se ocupa, majoritariamente, de ouvir declarações e descrever fatos que testemunha. Parte do acompanhamento da buscas dos ossos enterrados de Che para também refletir sobre a força do maior mito latino-americano.

A Veja de 2007 entrevista seis fontes para a matéria. Todos são cubanos da Flórida, inclusive dois historiadores, um do Instituto da Memória Histórica Cubana de Miami, e o outro da Universidade de Miami.

A reportagem justifica a concentração de fontes: "o regime policialesco de Fidel Castro não permite que aqueles que conviveram com Che e permaneceram em Cuba possam ir além da cinzenta ladainha oficial". Não explica, porém, porque não foram ouvidos observadores internacionais neutros, ou companheiros de Che em campanhas fora da ilha.

Já Dorrit Harazim concentra-se nas fontes que encontra pelo caminho, nas cidades bolivianas onde Che é um ser místico, literalmente adorado como santo.
Diego Schelp e Duda Teixeira expõem diagnósticos certeiros sobre Guevara, na maioria das vezes desacompanhados da análise de qualquer fonte. Eles reduzem as origens da mitificação do argentino a três fatores ligados a alguma espécie de "sorte histórica".

São eles: a morte prematura; a ajuda involuntária de seus algozes, que conferiram ao rosto do Che defunto espantosa semelhança com as pinturas barrocas do Cristo morto; e ao contexto favorável, às vésperas dos protestos da geração de 1968.

Já a matéria anterior tem espaço para o contraditório e questões complexas, inalcançáveis por respostas simples. Ouve diversos bolivianos admiradores de Che, povo que, segundo o texto atual, "tinha raiva dele".

Um destes admiradores, ao encontrar um cubano integrante da guerrilha que então vivia na Espanha, pergunta: "Por que vocês começaram a guerrilha antes de conhecerem o terreno e estarem preparados? Mas por que, depois de tudo isso, você não vive em Cuba? - O ex-guerrilheiro ficou quieto", diz trecho de dez anos atrás.

Disparidade ainda mais gritante entre as duas matérias da mesma revista se encontra na adjetivação usada para qualificar Guevara e suas ações. "Che tem seu lugar assegurado na mesma lata de lixo onde a história arremessou há tempos outros teóricos do comunismo"; (...) "sua maníaca necessidade de matar pessoas".

Em 1997, Veja publicava: "Che empolga por ter sido um rebelde com causa, aventureiro e vagabundo, de ar atormentado e ardor revolucionário, mas sobretudo um rebelde capaz de abrir mão de tudo, especialmente do poder".

E mais: "O mito de Guevara (...) ampara-se na simplicidade, (...) e na entrega de sua vida à defesa da solidariedade e justiça social".

Che morreu há 40 anos. Nos últimos dez, nada de relevância decisiva sobre sua história foi revelado. Enquanto seu mito não pára de crescer.

No entanto, como podemos observar, a visão e os procedimentos jornalísticos que a maior e mais influente revista brasileira tem e propaga diante dos fatos mudou radicalmente no período. Sem maiores explicações ou avisos aos seus leitores.

Questão tão complexa ou simples como a da força do mito de Che é: Por que?

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O rolo do rolex

ZECA BALEIRO

"Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado?"



NO INÍCIO do mês, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto sobre o roubo de seu Rolex. O artigo gerou uma avalanche de cartas ao jornal, entre as quais uma escrita por mim. Não me considero um polemista, pelo menos não no sentido espetaculoso da palavra. Temo, por ser público, parecer alguém em busca de autopromoção, algo que abomino. Por outro lado, não arredo pé de uma boa discussão, o que sempre me parece salutar. Por isso resolvi aceitar o convite a expor minha opinião, já distorcida desde então.

Reconheço que minha carta, curta, grossa e escrita num instante emocionado, num impulso, não é um primor de clareza e sabia que corria o risco de interpretações toscas. Mas há momentos em que me parece necessário botar a boca no trombone, nem que seja para não poluir o fígado com rancores inúteis. Como uma provocação.

Foi o que fiz. Foi o que fez Huck, revoltado ao ver lesado seu patrimônio, sentimento, aliás, legítimo. Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal.

Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como "sou cidadão, pago meus impostos". Dias depois, Ferréz, um porta-voz da periferia, escreveu texto no mesmo espaço, "romanceando" o ocorrido. Foi acusado de glamourizar o roubo e de fazer apologia do crime.

Antes que me acusem de ressentido ou revanchista, friso que lamento a violência sofrida por Huck. Não tenho nada pessoalmente contra ele, de quem não sei muito. Considero-o um bom profissional, alguém dotado de certa sensibilidade para lidar com o grande público, o que por si só me parece admirável. À distância, sei de sua rápida ascensão na TV. É, portanto, o que os mitificadores gostam de chamar de "vencedor". Alguém que conquista seu espaço à custa de trabalho me parece digno de admiração.

E-mails de leitores que chegaram até mim (os mais brandos me chamavam de "marxista babaca" e "comunista de museu") revelam uma confusão terrível de conceitos (e preconceitos) e idéias mal formuladas (há raras exceções) e me fizeram reafirmar minha triste tese de botequim de que o pensamento do nosso tempo está embotado, e as pessoas, desarticuladas.

Vi dois pobres estereótipos serem fortemente reiterados. Os que espinafraram Huck eram "comunistas", "petistas", "fascistas". Os que o apoiavam eram "burgueses", "elite", palavra que desafortunadamente usei em minha carta. Elite é palavra perigosa e, de tão levianamente usada, esquecemos seu real sentido. Recorro ao "Houaiss": "Elite - 1. o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social [este sentido não se aplica à grande maioria dos ricos brasileiros]; 2. minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social [este, sim]".

A surpreendente repercussão do fato revela que a disparidade social é um calo no pé de nossa sociedade, para o qual não parece haver remédio -desfilaram intolerância e ódio à flor da pele, a destacar o espantoso texto de Reinaldo Azevedo, colunista da revista "Veja", notório reduto da ultradireita caricata, mas nem por isso menos perigosa. Amparado em uma hipócrita "consciência democrática", propõe vetar o direito à expressão (represália a Ferréz), uma das maiores conquistas do nosso ralo processo democrático. Não cabendo em si, dispara esta pérola: "Sem ela [a propriedade privada], estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos". Confesso que me peguei a imaginar esse sr. de tacape em mãos, lutando por seu lugar à sombra sem o escudo de uma revista fascistóide. Os idiotas devem ter direito à expressão, sim, sr. Reinaldo. Seu texto é prova disso.

Igual direito de expressão foi dado a Huck e Ferréz. Do imbróglio, sobram-me duas parcas conclusões. A exclusão social não justifica a delinqüência ou o pendor ao crime, mas ninguém poderá negar que alguém sem direito à escola, que cresce num cenário de miséria e abandono, está mais vulnerável aos apelos da vida bandida. Por seu turno, pessoas públicas não são blindadas (seus carros podem ser) e estão sujeitas a roubos, violências ou à desaprovação de leitores, especialmente se cometem textos fúteis sobre questões tão críticas como essa ora em debate.

Por fim, devo dizer que sempre pensei a existência como algo muito mais complexo do que um mero embate entre ricos e pobres, esquerda e direita, conservadores e progressistas, excluídos e privilegiados. O tosco debate em torno do desabafo nervoso de Huck pôs novas pulgas na minha orelha. Ao que parece, desde as priscas eras, o problema do mundo é mesmo um só -uma luta de classes cruel e sem fim.



JOSÉ DE RIBAMAR COELHO SANTOS, 41, o Zeca Baleiro, é cantor e compositor maranhense. Tem sete discos lançados, entre eles, "Pet Shop Mundo Cão".

sábado, 27 de outubro de 2007

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Jubileu do Ziraldo 75 anos



Hoje é aniversário do Ziraldo. O desenhista, escritor, editor, apresentador, jornalista, ilustrador e caricaturista e outros mais "istas" completa 75 anos.
Eu que sempre gostei de desenhar (apesar do tempo longe do papel e do lápis e caneta) sempre fui um admirador do seu traço preciso. Hoje sou um admirador também de sua cultura e erudição. Um vínculo artístico, emocional e cultural com o sujeito.

Tempos atrás ele foi entrevistado pelo Gerald Thomas e eu assisti. O Gerald Thomas é um boçal. Mas vale a entrevista por causa do entrevistado. Sem dúvida. O entrevistador diz que Ziraldo é o responsável por sua formação intelectual e cultural. Cita um epiosódio onde o desenhista lhe deu uma lista de livros que deveriam ser lidos para ter essa formação intelectual inicial.
Tempos mais tarde eu estava trabalhando no Rio de Janeiro e estava rolando a Bienal do Livro no Rio Centro. Fui até lá e tive o imenso prazer de encontrar com o ilustrador em pessoa. Na época ele publicava o jornal O Pasquim. Comprei um exemplar e pedi que ele autografasse. Ele escreveu: "VIVA O MARCELO!" Sensacional.
Abusei dele e mencionei a entrevista. Ele disse: "Nossa! Você viu aquilo? Ninguém viu aquela merda." Mencionei a lista de livros e ele a refez para mim. Sensacional ao quadrado!!!
Lamentavelmente perdi ambos. Teria mandado enquadrá-los. Pena...

Sempre viajei com meu pai para Vitória. E criança, durante viagem, sempre fica perguntando se falta muito, se falta muito. No meu caso eu perguntava se faltava muito pra chegar no posto do indiozinho. Um posto de abastecimento, com hotel e restaurante que fica ao longo da BR-101. O nome era Flecha. E eu perguntava sobre o posto do indiozinho por causa de um desenho de um indiozinho que eu adorava. E só recentemente na minha ida para Vitória no carnaval é que me dei conta de que o tal indiozinho foi desenhado pelo Ziraldo.



Sábado, dia 27 às 13:30h no Canal Brasil irá ao ar um documentário sobre o escritor.
De qualquer forma, hoje eu é que digo: "VIVA O ZIRALDO!"

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Saiba afinal qual é a sua profissão

Você trabalha em horários alternativos, assim como as putas?

Você é pago para manter os clientes felizes, assim como as putas?

O cliente paga bem, mas o chefe fica com quase tudo, assim como as putas?

Você tem horário, mas só sai depois de terminar o serviço, assim como as putas?

Mesmo sendo bom, raramente você faz as coisas como gosta, assim como as putas?

Pagam para você satisfazer as fantasias dos clientes, assim como as putas?

O seu chefe tem um grande carrão, assim como o chefe das putas?

Quando você vai "atender" um cliente você está ótimo, mas quando você volta parece ter saído do inferno, assim como as putas?

O cliente quer pagar pouco e exige que você faça maravilhas, assim como com as putas?

Se as coisas correm mal, a culpa é sempre sua, assim como as putas?

Então, meu amigo(a), se você não é uma puta então você é um analista de sistemas...

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Paixão infantil

Tem certas coisas que entram na nossa vida na infância para nunca mais sair. Em 1983 eu tinha 8 anos. Não façam contas, prestem atenção no texto, por favor. Na época meu pai sempre fazia questão de me levar em programinhas para me divertir. Parque de diversão, lugares para andar de bicicleta, enfim, ele sempre procurou ter momentos de lazer comigo. E volta e meia ele me levava para o cinema. Vi uma dúzia de filmes dos Trapalhões. Vários. Ele já me levara para assistir aos três filmes daquele ano: O Cangaceiro Trapalhão, O Trapalhão na Arca de Noé e Atrapalhando a Suate. Era meio que a receita de bolo. Não tinha como errar. Leva lá o menino pra ver Os Trapalhões no cinema que ele vai curtir e vai dar risada. Só que neste ano ele fugiu um pouco da regra. E, talvez por indicação de alguém, resolveu me levar pra ver um negócio diferente. Um tal de Guerra nas Estrelas - O Retorno de Jedi. Fomos num cinema de Santo André, na Rua Campos Sales. Hoje certamente deve ter virado alguma igreja evangélica ou bingo. Fui sem ter a menor idéia do que assistiria. Meu pai MENOS ainda. Nunca tinha ouvido falar da Trilogia. E já caí de paraquedista para assitir o último episódio. Eu com 8 pra 9 aninhos, olhando aquele filme onde um cara luta contra uma espécie de robô, todo preto, com cara de caveira usando uma espada LASER!!! Eu, pensei: "Noooooooooossa, o cara tem uma espada LASER!!!" Muito embora um certo "nerdismo" precoce da minha parte me indicasse ser impossível ter um feixe limitado de laser e explosões ruidosas no espaço, eu fiquei fascinado por aquilo. Confesso que na ocasião fiquei mais extasiado pelas imagens e por aquela fantasia e ação do que pela história; que não era uma ficção científica futurista. Era tudo meio velho, meio usado, meio quebrado. Improvisado até. O cara tinha que dar uns tapões na nave pra ela pegar. Talvez pelos orçamentos mais modestos do que os de hoje. Era curioso pra mim porque o filme se passa "numa galáxia muito distante, há muito tempo atrás." E não no futuro como era de costume. Na época eu gostava MUITO de brincar com massinha de modelar. E logo tratei de fazer um Darth Vader em massinha, devia ter fotografado ele. Ficou igualzinho. Até uma capinha preta de tecido eu arrumei para completar. Além disso já engrenei uma coleção de album de figurinhas. Além deste "livro ilustrado" só me recordo de ter colecionado figurinhas de outros dois albuns. Lembro-me também que as meninas da classe faziam uns caderninhos de enquete. O objetivo era tentar descobrir quem gostava de quem. Mas tinha umas perguntinhas pra se descobrir o gosto dos participantes. Uma delas era filme favorito. Nem é preciso dizer o que o fedelho do Marcelo respondia... Só sei dizer que essa paixão dura até hoje. Mais crescidinho um pouco eu procurei ver os outros 2 filmes que antecederam ao que eu assistira. E claro, quando lançaram os 3 novos episódios (que na verdade se passam cronologicamente ANTES da trilogia anterior) eu não deixei de conferir. Certamente. Assisto a esses filmes evidentemente com olhos e coração de criança. Que se deixa levar pela fantasia. Não fico entrando no mérito se é cinema, arte ou entretenimento. Gosto mesmo é de ver o Darth Vader na sua mais absoluta maldade. Ele, o maior vilão da história do cinema, que jamais riu. Acho um barato. Toda essa coisa de lado negro da força. Que me rende várias metáforas e várias brincadeiras hoje em dia. Serve pra tudo. Isso sem falar da recordação afetiva daquele passeio inesquecível com o pai. Um divertimento de criança. Um episódio da minha infância que eu vou levar para sempre. Hoje, eu tenho um pouquinho de Darth Vader, de lado NEGRO da força. Vejamos se ao final o Marcelo Skywalker vai se redimir e voltar para o lado branco da força.

Que a força esteja com vocês.



Metade Marcelo, metade Darth Vader.

Agradecimentos:
Camila Pavanelli, pela excelente revisão.

domingo, 14 de outubro de 2007

Frase

"A errata é sempre menor do que a manchete."

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Quando os pobres pagam pelos ricos

Nosso sistema tributário tem atuado como um Robin Hood às avessas, que tira o dinheiro dos pobres para dar aos ricos. No topo da lista dos privilegiados, estão as grandes corporações (principalmente bancos) e as multinacionais.

Por Clair Hickmann

Beneficio que favorece as grandes corporações
Ao contrário do contribuinte comum (pessoa física), que tem sofrido a ação implacável do fisco para pagar a conta do ajuste fiscal, grandes grupos econômicos e rendas de capital recebem privilégios tributários. A maioria desses benefícios nem mesmo é computada com renúncia fiscal no orçamento da União, apesar da exigência prevista no parágrafo sexto do artigo 165 da Constituição. Um dos benenfícios fiscais criado no final de 1995, é a permissão legal (1) para deduzir do lucro tributável uma despesa fictícia denominada "juros sobre capital próprio", reduzindo com isso os tributos sobre o lucro - Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Essa inovação permite à empresa remunerar o capital próprio, pagando juros aos sócios e acionistas e deduzindo a suposta despesa do lucro. Grandes empresas com lucros fabulosos deixam de distribuir dividendos nos moldes típicos do sistema capitalista para distribuir juros aos sócios e aos acionistas, visando unicamente à redução do pagamento de tributos na empresa. Os maiores beneficiários desse incentivo são as grandes corporações, capitalizadas e lucrativas, principalmente bancos. Em 2005, os cinco maiores bancos brasileiros distribuíram aos seus acionistas R$ 6,1 bilhões de juros sobre o capital próprio, o que representou uma redução nos seus encargos tributários da ordem de R$ 2 bilhões (2).
Para os cofres públicos, somente em 2006, a distribuição de juros sobre o capital próprio significou uma renúncia fiscal da ordem de R$ 4,24 bilhões.

Isenção que privilegia as multinacionais
Outro privilégio criado durante o governo FHC é a isenção de Imposto de Renda dos lucros e dividendos distribuidos. O lucro passou a ser tributado apenas na pessoa jurídica. Até 1995, os dividendos eram taxados na fonte ou na declaração anual de IR dos beneficiários. Na verdade, criou-se um privilégio para os rendimentos de capital. O princípio da isonomia foi ignorado.
Com essa isenção, os cofres públicos deixaram de arrecadar aproximadamente R$ 5,4 bilhões em 2006 (3).
Isentou-se também de imposto de renda a remessa de lucros e dividendos ao exterior (4).
Até 1995, essas remessas eram tributadas em 15%. Estima-se a renúncia fiscal em R$ 4 bilhões para o ano de 2006 (5).
Esse benefício estimulou a remessa de lucros e dividendos ao exterior pelas multinacionais, batendo recorde em 2005, no valor de R$ 12,7 bilhões, maior montante desde 1947, segundo dados do Banco Central.
A soma desses três benefícios mencionados, em 2006, significa uma renúncia tributária a favor da renda do capital da ordem de R$ 13,4 bilhões.
Esses privilégios são desconhecidos pela maioria da população e os recursos que o Estado deixa de arrecadar com eles são omitidos do orçamento público (6).
O contrário acontece com os gastos que o cidadão comum deduz do imposto de renda. As despesas com saúde, educação e dependentes são computadas no orçamento da União como renúncias fiscais. Isso é um equívoco completo, porque tais gastos representam o mínimo existencial e, portanto, não podem ser considerados renda potencial a tributar. Como se vê, são dois pesos e duas medidas.
A estimativa do governo federal com desonerações de natureza tributária, para o ano de 2007, é de R$ 52,7 bilhões. Isso representa 2,29% do PIB e 12,79% da arrecadação tributária administrada pela SRF. Esses números são bastante questionáveis, visto haver renúncias tributárias expressivas não computadas enquanto outras, que não representam potencial de arrecadação, são consideradas como benefícios fiscais. Além disso, também benefícios e isenções concedidos pelos governos estaduais e municipais que tem gerado forte discussão, porque, muitas vezes, provocam guerra fiscal entre os entes federados. Mas esse assunto é para outro artigo. Meu objetivo aqui foi apenas mostrar que o privilégio de alguns é pago pelo cidadão comum.


Trecho da matéria publicada no Le Monde Diplomatique Brasil, edição de setembro de 2007.
1. Artigo 9 da Lei 9.249/95.
2. Dez anos de derrama, cit., pag 36.
3. Foi considerada apenas a isenção de lucros e dividendos distribuídos das empresas que adotam o sistema de apuração do lucro real. Valores estimados com base na DIPJ de 2000, aplicando a variação do IPCA.
4. Artigo 10 da Lei 9.249/95.
5. Remessas de lucros ao exterior convertidas à taxa do câmbio comercial média de 2006, aplicando-se a alíquota de 15% que vigorava até 1996.
6. Ver www.receita.fazenda.gov.br: Demonstrativo de Benefícios Fiscais 2006 - SRF.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Respostas rápidas

Na câmara dos deputados.
Deputado 1: Vossa Excelência é purgante!
Deputado 2: E Vossa Excelência é o resultado!

Num jantar na Inglaterra:
Senhora: Se eu fosse a sua esposa, eu colocaria veneno no seu café, Sr. Winston.
Winston: E se eu fosse o seu marido, eu beberia.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Viva CHE


No dia 14 de junho do ano que vem, Ernesto Guevara Lynch de La Serna completaria 80 anos. Hoje, dia 9 de outubro de 2007, no quadragésimo aniversário de sua morte, rendo as minhas homenagens ao guerrilheiro, ao revolucionário, ao nostro hermano latinoamericano que doou sua vida à luta contra a injustiça no nosso continente. Viva CHE Guevara!

O ex-suboficial do exército boliviano Mario Terán, que em outubro de 1967 assassinou Che em uma escola do povoado de La Higuera, recuperou a visão após ter sido operado por médicos cubanos em um hospital da Bolívia doado por Cuba. Ele recuperou a visão graças aos médicos seguidores de sua vítima.

P.S. Pretendo dedicar um post para analisar a matéria dos escribas de plantão da Veja que tratou de tentar aviltar a sua imagem e memória. Fui na banca de jornal, como de costume para comprar a Caros Amigos. Aproveito para levar também o segundo número do Le Monde Diplomatique Brasil. Quando dou de cara com a capa da Veja: Che, a Farsa do Herói. Por um instante pensei em comprar. Depois me recusei a dar dinheiro para os Civita. Vou esperar o conteúdo ficar disponível. Vou ler e criticar num post futuro.

Tudo no universo tem limite. Exceto a estupidez humana.

Sobre os textos de Huck e Ferrez minha amiga Camila comentou que burrice não escolhe classe social. Ao ler o texto do Nelson Ascher eu concluí que ela extrapola toda e qualquer classificação. O sujeito escreve o que se segue e tem a coragem de dizer que é jornalista. Lastimável:

NELSON ASCHER

Entre Hobsbawm e Huck

Entrevista de historiador e reações a assalto distinguem esquerdistas das pessoas racionais

A NENHUM ideário se aplica tão bem a analogia com o tempo verbal chamado futuro do pretérito como ao comunismo, que, sempre dependendo do porvir, pagava os desastres presentes com os cheques pré-datados (e frios) da utopia. Daí que não exista situação mais embaraçosa para um comunista do que a longevidade. Este é o caso do historiador comunista (desculpem o oxímoro) Eric Hobsbawm, cuja entrevista a Sylvia Colombo foi publicada recentemente na Folha.Filiado ao Partido Comunista britânico desde a juventude, o "historiador" já colocara sua pena servil ao serviço deste em 1940, escrevendo com Raymond Williams um infame panfleto pró-imperialista defendendo a invasão da Finlândia pela URSS. Ele justificava sua escolha como a única possível diante da ameaça nazista. Só que, se era tão antinazista, por que continuou a apoiar os soviéticos entre 39-41, quando estes eram os mais importantes aliados da Alemanha? Por que não abandonou o partido para apoiar o país que estava combatendo o Terceiro Reich, isto é, o seu?Hobsbawm gosta de repetir que foram antes os intelectuais do bloco soviético, não o povo, que se desencantaram com o comunismo. Se o diz, contudo, é porque, como bom intelectual, passou a vida falando de preferência com outros intelectuais. Caso contrário, saberia que, desde seu estabelecimento, não houve no mundo sistema mais desprezado e odiado por suas vítimas, as pessoas comuns. Mesmo o nazismo foi mais popular, pelo menos entre os alemães e enquanto a guerra lhes parecia favorável.É fácil entender as razões pelas quais nosso ideólogo abandonou os ares de historiador e preferiu dedicar-se à futurologia, prevendo a queda iminente de um tal de império americano. Está certo ele: nada no passado saiu como imaginara (ou desejara) e, assim, aos 90 anos de idade, é mais seguro discorrer sobre o que não irá testemunhar. Seu problema, contudo, é o seguinte: se não conseguiu antever nem aceitar o desmoronamento, em menos de três gerações, de um império territorial, o soviético, e se tampouco é capaz de compreender que o verdadeiro imperialismo de nossos tempos é o islâmico, por que alguém perderia tempo com ele em seu papel de Cassandra?Seja como for, um mérito seu deve ser reconhecido. Como velho marxista, ele não manifesta simpatia pelo desvario teocrático-político. Já seus discípulos têm menos escrúpulos e, especialmente no Reino Unido, acreditam que em sua aliança com as lideranças e massas islamizadas está a chave para a revolução antiimperialista.Se o comunismo foi um dia a aspiração prometéica de transformar o mundo sobre os ossos de cadáveres, hoje em dia ele não passa de um reacionarismo desorientado e rancoroso, cioso de cada detrito de sua mitologia kitsch (como Che Guevara) e sempre acreditando que "quanto pior, melhor". Isso é o que transparece em reações a um artigo que, a respeito do assalto que sofrera nos Jardins, o apresentador de TV Luciano Huck publicou, na semana passada, na seção "Tendências/Debates".O tom das respostas negativas era o de que um brasileiro que não seja "excluído" não tem direito nem aos benefícios da cidadania, nem à proteção das leis nem sequer à solidariedade. Está proibido até de reclamar. Segundo aquelas, caso alguém pertença à "elite", mesmo que pague impostos e não cometa crimes, tem é que morrer, salvo, talvez, se ingressar no PT. Também quem mandou Huck violar o tabu e afirmar o óbvio, que lugar de bandido é na cadeia? Não cai bem dizer que é graças ao aumento da população carcerária que, nos últimos anos, a criminalidade caiu dois terços em São Paulo.Há, todavia, um paradoxo que torna ainda mais estranho o contexto dessa história. O que distingue os esquerdistas das pessoas normais e racionais é o fato de que aqueles são avessos à iniciativa privada, achando que tudo deve ser confiado ao grande benfeitor, o Estado. Tudo, sim, com uma exceção: a violência. Quando se trata desta, o Estado (se é de direito e democrático) nunca pode usá-la legitimamente, mas, se forem indivíduos que recorrem a ela, então é permitida e até desejável, sobretudo no caso de bandidos e terroristas. A violência boa, para essa gente, que provavelmente aprova Hobsbawm e desaprova Huck, é a do free-lancer, exceto quando o Estado é revolucionário e perpetra uma violência idem. Execução em massa de opositores políticos, tudo bem; prisão para bandidos, não.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Você sabia?



Você sabia que dos 13 senadores do PSDB, NOVE estão sendo processados por desvio de verbas, improbidade, peculato, compra de votos e outras atividades criminosas, ou seja, 70% da bancada tucana?

Na Câmara, dos 58 deputados do PSDB, 14 estão sendo processados. 24,13%.

O DEM (Demônios da direita) tem 16 dos seus 59 deputados sendo processados. 27,11%.

O PT tem SETE dos seus 81 deputados sendo processados (8,64%). E NENHUM senador.

Essa certamente vocês NÃO vão ver na Globo, muito menos na Veja.

(Fonte: STF)

Pensamentos de um "correria"

FERRÉZ

"Ele não terá homenagem póstuma se falhar. Pensa: "Como alguém usa no braço algo que dá pra comprar várias casas na quebrada?"

ELE ME olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto. Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos. Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo. O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada. O motoboy tenta se afastar, desconfia, pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega, perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga. Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita. Enquanto isso, muitos em seus carros ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal. Ele anda devagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito. Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais, só que, neles, ninguém sofre por beber. Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva pro século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa -mas, pra que estudar se, pela nova lei do governo, todo mundo é aprovado? Ainda menino, quando assistia às propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém. Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra. Não acreditava em heróis, isso não! Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto. Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. Ou matava logo ou saía fora. Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso. Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo. A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos! Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa. Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou. No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.


Texto publicado por Ferréz na Folha de São Paulo no dia 8 de Outubro de 2007.
REGINALDO FERREIRA DA SILVA , 31, o Ferréz, escritor e rapper, é autor de "Capão Pecado", romance sobre o cotidiano violento do bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, onde ele vive, e de "Ninguém é Inocente em São Paulo", entre outras obras.

Pensamentos quase póstumos

LUCIANO HUCK

Pago todos os impostos. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa

LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura. Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio. Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado. Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia. Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa. Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável. Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres. Onde está a polícia? Onde está a "Elite da Tropa"? Quem sabe até a "Tropa de Elite"! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito. Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso. Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro. Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase "infantis" para uma sociedade moderna e justa. De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui. Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber. Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de "extraterrestres" fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo? Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no "Roda Vida" da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, "Tropa de Elite" é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando. Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: "Cansei". O Lobão canta: "Peidei". Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar. Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.Isso não está certo.


Texto de Luciano Huck publicado na Folha de São Paulo no dia 1 de Outubro de 2007.
LUCIANO HUCK, 36, apresentador de TV, comanda o programa "Caldeirão do Huck", na TV Globo. É diretor-presidente do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.


domingo, 7 de outubro de 2007

Tecendo a Manhã

"Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão".

(João Cabral de Melo Neto)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Temaki na Segunda

Segundona brava. Saio do meu cliente em Interlagos e pego um transitozinho considerável até chegar na sede da Microsiga, na Zona Norte. A razão da viagem é entregar o relatório mensal que passara a tarde inteira preparando.

Entregue o relatório, decidi me entregar a um prazer gastronômico logo no começo do mês e da semana. Fui até o Sushi Hiroshi, no 189 da Capitão Manoel Novaes. Nas minhas idas mensais ao restaurante do Julio, eu costumo apreciar um combinado japonês que não está no cardápio. O Julio sai montando com aquilo que ele tem de mais fresco e de novidade. É ele quem escolhe o que eu vou comer. As surpresas são sempre agradáveis. O combinado é montado sobre um pedra inclinada de granito preto e impressiona pelo sabor, visual, qualidade e quantidade.

Parte generosa dos frequentadores do japa são de funcionários da Microsiga.

O importador de salmão do Hiroshi é cliente da Microsiga. E numa ocasião eu fui atendê-lo. Lá eles me disseram que o Hiroshi está entre os cinco melhores restaurantes japoneses de São Paulo. E que além de ser o cliente mais criterioso, ele só aceita pescados frescos.

Os combinados prezam também pelos ingredientes exóticos. Que sempre faço questão de conhecer. Dentre os ingredientes diferentes já experimentei: inúmeras ovas, de tudo quanto é tamanho e cor, barbatanas de tubarão, filhotes de enguia e ovas de ouriço.

Mas desta vez não queria combinado. Eu estava com vontade de comer temakis. Que são aqueles enrolados cônicos de peixe cru, arroz, e temperos. Queria de salmão mais exatamente. Mas chegando lá, ao falar que desta vez não encararia o "de sempre", me sugeriram:

"Já comeu atum gordo?"
Não. Nunca comi, respondi.
"Quer experimentar? Fica bom no Temaki."
CLARO. Lá eu não discuto. O que me oferecem eu encaro.

Aprendi que atum gordo é o filé mignon ou a picanha (a parte mais nobre) de uma raça de atum chamada bati. A carne é bem mais clara que a do atum convencional, mais macia e ainda mais saborosa e suave.
O temaki do Hiroshi, além de parecer um cone da Companhia de Engenharia de Tráfego, feito com atum gordo moidinho ficou um espetáculo. Claro que um só não seria suficiente. Pedi um segundo de atum gordo e um terceiro de salmão.

O próprio restaurante raramente encontra esse tipo de peixe para comprar. Igualmente difícil de se conseguir é um outro chamado agulhão ou prego, que é um peixe com uma carne bem branquinha, macia e saborosa. Lembra um pouco o salmão. Comi desse peixe no Hiroshi algumas vezes. Mas nas últimas vezes que fui eles nunca tinham agulhão para servir. Tanto o atum gordo, quanto o agulhão são peixes com carnes com alto teor de gordura.

Mas agora meus problemas acabaram. Entrei para uma listinha do restaurante. Onde os clientes informam suas preferências. E quando o restaurante consegue adquirir o produto, eles ligam chamando. Sempre que chegar agulhão ou atum gordo, lá estará o Marcelo...

sexta-feira, 28 de setembro de 2007