Quarta de manhã, vejo que o meu amigo Nícolas Borges, jornalista do Diário de São Paulo, havia mandado uma mensagem no meu celular:
"Cara, nao sei se vc vai ler a tpo, mas o L. Colour vai tocar no Jo, daqui a pco. Ab, Nicolas"
Já era tarde demais... Droga, perdi uma apresentação dos caras... Pareceu até que eu estava adivinhando. Tanto tempo sem ouvir, quando eu retomo os CDs da banda, os caras aparecem na TV e eu não vejo. Paciência. Começo da tarde, Nícolas avisa pelo msn:
"Vai ter show dos caras no Via Funchal!"
Topei na HORA e avisei os amigos, dois deles toparam INSTANTÂNEAMENTE: Vanderlei, o personal trainer e Vlad, meu amigo polivalente. O show passou a ser um compromisso inadiável. Não há desculpas para não ir. Dane-se qualquer outro compromisso. Começamos a correria pra garantir os ingressos. No início pensamos que seria na quarta, nos enganamos, seria na quinta. Rafael, meu amigo físico, ainda tentou ir. Mas não rolou... Foi uma pena. Certamente ele curtiria DEMAIS. Além de físico ele também é guitarrista.
Nícolas se encarregou de comprar os ingressos. Inicialmente iríamos em quatro caras. Ai a Gisleine, minha amiga empresária (Fórmula Pet) e esposa do Nícolas decidiu ir também. Otimo! Mas eles iriam mais tarde. Então fomos, Vanderlei, Vlad e eu, numa ansiedade sem fim. Chegando no Via Funchal ainda encontramos o Maurício Garcia, baterista da banda Gato de Armazém (a banda de MPB do Vlad) e bancário nas horas vagas.
O cabeçudo que vos escreve esqueceu o celular no carro. Assim que chegou o Nícolas ligou e mandou mensagem. Mas o celular não conseguiu entrar no show sem ingresso... E acabou voltando para o carro. Acabamos assistindo o show sem nos encontrarmos.
O show
Eu já havia assistido um OUTRO show do Living Colour uns 12 ou 14 anos atrás. Não sei ao certo. Foi no antigo Palace (hoje, nome da empresa
Começa o show, Corey Glover vai cantar, o microfone não funciona. Troca-se o microfone. O guitarrista Vernon Reid esquece a hora de entrar quando começavam a tocavar Desperate People. Eles conversam e resolvem começar o show com outra: Type (ASSISTA!!! Aqui). Tomamos uma porrada logo de cara. Pra começar. Patada de elefante mesmo! Foi de 0 a 100 em 2 segundos.

Doug Wimbish tira sons inacreditáveis de seu contrabaixo. O cara fez pacto com o diabo. Só pode.

O guitarrista Vernon Reid é um ignorante. Ele não sabe brincar. Ele tinha até um PC pros efeitos da guitarra. Ele destruía TUDO arregaçava. E no final só faltava olhar e falar: Pronto. Entendeu? Então agora repete.

Tem uma hora que o baterista sola acompanhando uma bateria eletrônica a precisão é a mesma. Só que ele pega o tempo e quebra em minúsculos pedacinhos. Eu, que já estudei bateria, apesar de não saber mais nada sei o quanto aquilo tudo é impraticável... No show ele ainda mandaria uma pegada eletrônica, só que feita à mão. E uma palhinha de samba enredo. O prato verde na foto é parte da bateria eletrônica. O Vlad disse que ele está fazendo um documentário sobre maracatu.

Corey Glover não canta. Ele sola com a voz. Parece capaz de qualquer coisa com ela. Dá notas altíssimas. Mais altas que cu de anjo. Chega a bancar o cantor gospel só pra tirar uma onda. Mas a sua voz é animal. Tem muita força. E ele a emprega pra dar a pegada Rock N' Roll à banda. E o cara me entra no palco com a camiseta do Che. Já paguei um pau só de ver.
Eu e meus amigos sempre discutimos a existência da tal presença de palco. Uns dizem que é bobagem, outros dizem que é imprescindível. Presença de palco existe, SIM: e os caras são livres docentes no assunto.
O público é predominantemente masculino. As poucas mulheres presentes acompanhavam os namorados. Pena. Podia ser mais florido. Mas tudo bem. Para elas: Glamour Boys e Love Rears Its Ugly Head, as mais conhecidinhas.
Até eu entonei um "I'm a Glamour Boy!!!". Quem vê pensa... (risos)
Nothingness
All I have to feel is my lonliness
Nothing in the attic ’cept an empty chest
And nothing lasts forever
(Nothingness)
I will never be satisfied until it ends in fire
The world spins round and round and round
My life's in pieces on the ground
Some hearts just can't be bound, no
I feel like I'm going to drown
(Never Satisfied)
Quando eles anunciaram que a próxima música seria Go Away eu não agüentei (sim, continuarei usando tremas) e gritei:
"EU VOU MORREEEEEEEER!!!"
O pessoal que estava do lado rachou o bico.
E quase morri MESMO de TANTO pular!
I see the starving Africans on TV
I feel it has nothing to do with me
I sent my twenty dollars to Live-Aid
I’ve aided my guilty conscience to go away
Now go away
Now go away
Now go away
Go away
I don’t want anybody to touch me
I think everybody has AIDS
What’s the point in caring for you?
You’re gonna die anyway
O show foi inacreditavelmente vibrante. Nunca me empolguei TANTO numa apresentação de música. Ao mesmo tempo, três amigos completamente inconformados de como era possível um show daqueles. E chegamos a conclusão: Trata-se do talento negro pra música. Indiscutívelmente.
Os três amigos chegam entao a alguns consensos:
Esta foto eu tirei. Estava MUITO perto do palco...
- A melhor banda de Rock que existe.
- É música de negro? É! A gente toca. Jazz, Hip Hop, Blues, Rock... Dane-se. A gente toca e BEM.
- Seria preciso ter 4 olhos independentes para dar atenção a tudo que se passava no show.
Mandaram Elvis Is Dead. O refrão é puxado em português: "Elvis está morto! Elvis está morto!"
Ainda tiraram um barato tocando Unchained Melody. Quase morri do coração.
Elvis was a hero to most
But that's beside the point
A Black man taught him how to sing
And then he was crowned king
The pelvis of Elvis
Too dangerous for the masses
They cleaned him up and sent him to Vegas
Now the masses are his slave
Slave?
Slave
Yes, even from the grave
Elvis is dead
Foi a experiência musical mais absurda, mais vibrante e brutal que eu já tive. Indescritível, muito embora eu tenha tentado. Apresentação irretocável nem parece que foram 2 horas. A banda é impressionantemente versátil e completa. Eles gostam do Brasil. Um de seus maiores públicos é o brasileiro. Após uma temporada separados a banda voltou com o album Colideoscope, que teve participação do Lenine na produção.
No dia seguinte a apresentação será no Rio. A vontade de ir só pra assistir de novo foi grande. Tentadora.




A nossa imprensa anda se aculturando muito, por sinal. Andam lendo Nietzsche: "Não existem fatos, apenas interpretações"











