De alguns só restaram as caixas. Os discos se foram num furto onde se foi também o CD player do carro. Foi um reencontro muito legal com alguns albuns que estou escutando de novo esta semana.
Õ Blesq Blom é um disco dos Titãs de 1989. A meu ver é o disco mais poético dos Titãs. Ele se inicia e se encerra com vinhetas de Mauro e Quitéria que se apresentavam na Praia de Boa Viagem em Pernambuco. Ainda com a formação que incluía Arnaldo Antunes e Nando Reis. Ouvindo este disco eu me lamentei ainda mais pelo trágico acidente áreo que ceifou a vida dos músicos remanescentes logo após o lançamento do disco Titanomaquia em 1993. Sim, porque caso vocês não saibam. Estas pessoas que hoje se apresentam como sendo os Titãs, na verdade são sósias. Sim, sósias que foram colocados para substituir os verdadeiros Titãs. Ou vocês por acaso imaginam que após uma discografia em que figuram discos do calibre de Cabeça Dinossauro (1986), Jesus Não Tem Dentes No Páis Dos Banguelas (1987) e este sobre o qual escrevo; os Titãs verdadeiros seriam capazes de lançar um disco como Domingo (1996) e toda a meia dúzia de discos tolinhos que o sucederam? Em absoluto. Tanto é que eu, que não me deixo enganar, tenho TODOS os CDs até o Titanomaquia, é claro.
Enfim, em Õ Blesq Bom, ou como prefiro dizer, O Bles que é Bom, eu estou contemplando versos como:
O que se vê, não se via.
O que se crê não se cria.
Medo, medo, medo, medo
Lembrei-me também da minha mãe me repreendendo por eu estar escutando Pulso:
"Credo, Marcelo, que música é essa que só fala nome de doença?"
Apreciando as Flores:
A dor vai curar essas lástimas / O soro tem gosto de lágrimas / As flores tem cheiro de morte / A dor vai fechar esses cortes / Flores / Flores / As flores de plástico não morrem
Outro que estou namorando novamente é o disco do Living Colour gravado ao vivo no Japão à época da turnê do album Stain. É um dos discos de de rock que eu mais gosto. Indiscutivelmente. Lembrei do show que fui assistir em 93 ou 94 no então Palace. Não era preciso pular no show. Você pulava MESMO não querendo... O braço do baixo do Doug Wimbish tinha tanta corda que ficou mais largo que uma tábua de bater carne. Naquele show todos os músicos fizeram mosh, que consiste em pular do palco sobre o público. Todos menos o baterista que tinha uma correntinha usada como piercing no lábio inferior. Ela seria arracanda de sua boca caso se atrevesse...Costumo dizer que o Living Colour não é uma banda de rock. Mas sim, uma banda de música negra. Eles tocam TUDO que seja música negra, hip hop, jazz, blues, rock, reggae. Até mesmo porque, todos os integrantes são negros. A voz de Corey Glover é insana. Assim como a virtuose de todos os músicos.
Meu amigo Rafael, o Físico e professor, conta que uma vez ele estava numa loja de instrumentos musicais na Rua Teodoro Sampaio. Estava experimentando uma guitarra. No som ambiente da loja estava rolando Love Rears Its Ugly Head do Living Colour. O Rafael então passa a acompanhar o solo da música enquanto o vendedor da loja discorre sobre a falta de talento da banda. Eis que enquanto ele tocava, quem entra na loja? A banda Living Colour inteira. Os músicos em pessoa. Ele, que toca guitarra muito bem, abandona INSTANTANEAMENTE o teste do instrumento. Jamais ele iria querer ser observado e analisado pelo PRÓPRIO autor da música. Seria muito pro caminhãozinho, atesta ele.
A que eu mais gosto neste disco pelo peso de letra e da música é
GO AWAY
What is the point of suffering?
What is the purpose of joy?
Is it true that the winner dies
With the most toys?
A lifetime spent for a dollar
A lifetime twisting in pain
A lifetime gone in an hour
A lifetime playing the game
I see the starving Africans on TV
I feel it has nothing to do with me
I sent my twenty dollars to Live-Aid
I’ve aided my guilty conscience to go away
Now go away
Now go away
Now go away
Go away
I don’t want anybody to touch me
I think everybody has AIDS
What’s the point in caring for you?
You’re gonna die anyway
A lifetime searching for something
A lifetime going insane
A lifetime running from nothing
A life looking for someone to blame
O Rappa - Lado B Lado AÉ o disco mais emblemático da banda. Aquele que para mim tem mais significância e significado. Lançado quando O Rappa ainda contava com a contribuição do Marcelo Yuka, hoje com a sua nova banda F.Ur.T.O. Neste disco eu me confronto com a realidade da periferia e das favelas do Rio de Janeiro. A minha visita, ainda que a trabalho, à cidade maravilhosa me fez criar uma natural empatia pelo povo carioca, pela sua simpatia e pelas mazelas a que está exposto. As músicas falam sobre o cotidiano de abandono a que as comunidades periféricas estão sujeitas.
De seu sincretismo religioso em Cristo e Oxalá
Oxalá se mostrou assim tão grande
Como um espelho colorido
Pra mostrar pro próprio Cristo como ele era mulato
Já que Deus é uma espécie de mulato
Salve, Em nome de qualquer Deus, Salve
Da violência e truculência policial em Tribunal de Rua
...O cano do fuzil, refletiu o lado ruim do Brasil / Nos olhos de quem quer / E me viu o único civil rodeado de soldados / Como seu eu fosse o culpado / No fundo querendo estar / A margem do seu pesadelo / Estar acima do biótipo suspeito / Mesmo que seja dentro de um carro importado / Com um salário suspeito / Endossando a impunidade a procura de respeito
Mas nesta hora só tem sangue quente / E quem tem costa quente / Pois nem sempre é inteligente / Peitar um fardado alucinado / Que te agride e ofende para te / Levar alguns trocados / Era só mais uma dura / Resquício de ditadura / Mostrando a mentalidade / De quem se sente autoridade / Nessa tribunal de rua.
E a melhor: Minha Alma (A Paz Que Eu não Quero)
Assistam o clipe. Pois não é clipe, não. É CINEMA mesmo. Que reproduz um episódio verídico que aconteceu numa favela do Rio.
A minha alma
Tá armada e apontada
Para cara do sossego
Pois paz sem voz
Paz sem voz
Não é paz é medo
As vezes eu falo com a vida
As vezes é ela quem diz:
Qual a paz
Que eu não quero conservar
Prá tentar ser feliz
As grades do condomínio
São prá trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão...
Me abrace e me dê um beijo
Faça um filho comigo
Mas não me deixe sentar
Na poltrona no dia
De domingo
Procurando novas drogas
De aluguel
Neste vídeo coagido
É pela paz
Que eu não quero seguir
Admitido...
Um comentário:
Seu mala du carái, "Domingo" é um puta disco! Não tanto quanto os outros que você citou, mas ainda assim, é bom. Inferior também, claro, ao meu preferido dos Titãs do Iê-Iê-Iê, o singelo "Tudo Ao Mesmo Tempo Agora", o último álbum da formação clássica. É de 1991, se não me engano. Sublime.
Postar um comentário