segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Paixão infantil

Tem certas coisas que entram na nossa vida na infância para nunca mais sair. Em 1983 eu tinha 8 anos. Não façam contas, prestem atenção no texto, por favor. Na época meu pai sempre fazia questão de me levar em programinhas para me divertir. Parque de diversão, lugares para andar de bicicleta, enfim, ele sempre procurou ter momentos de lazer comigo. E volta e meia ele me levava para o cinema. Vi uma dúzia de filmes dos Trapalhões. Vários. Ele já me levara para assistir aos três filmes daquele ano: O Cangaceiro Trapalhão, O Trapalhão na Arca de Noé e Atrapalhando a Suate. Era meio que a receita de bolo. Não tinha como errar. Leva lá o menino pra ver Os Trapalhões no cinema que ele vai curtir e vai dar risada. Só que neste ano ele fugiu um pouco da regra. E, talvez por indicação de alguém, resolveu me levar pra ver um negócio diferente. Um tal de Guerra nas Estrelas - O Retorno de Jedi. Fomos num cinema de Santo André, na Rua Campos Sales. Hoje certamente deve ter virado alguma igreja evangélica ou bingo. Fui sem ter a menor idéia do que assistiria. Meu pai MENOS ainda. Nunca tinha ouvido falar da Trilogia. E já caí de paraquedista para assitir o último episódio. Eu com 8 pra 9 aninhos, olhando aquele filme onde um cara luta contra uma espécie de robô, todo preto, com cara de caveira usando uma espada LASER!!! Eu, pensei: "Noooooooooossa, o cara tem uma espada LASER!!!" Muito embora um certo "nerdismo" precoce da minha parte me indicasse ser impossível ter um feixe limitado de laser e explosões ruidosas no espaço, eu fiquei fascinado por aquilo. Confesso que na ocasião fiquei mais extasiado pelas imagens e por aquela fantasia e ação do que pela história; que não era uma ficção científica futurista. Era tudo meio velho, meio usado, meio quebrado. Improvisado até. O cara tinha que dar uns tapões na nave pra ela pegar. Talvez pelos orçamentos mais modestos do que os de hoje. Era curioso pra mim porque o filme se passa "numa galáxia muito distante, há muito tempo atrás." E não no futuro como era de costume. Na época eu gostava MUITO de brincar com massinha de modelar. E logo tratei de fazer um Darth Vader em massinha, devia ter fotografado ele. Ficou igualzinho. Até uma capinha preta de tecido eu arrumei para completar. Além disso já engrenei uma coleção de album de figurinhas. Além deste "livro ilustrado" só me recordo de ter colecionado figurinhas de outros dois albuns. Lembro-me também que as meninas da classe faziam uns caderninhos de enquete. O objetivo era tentar descobrir quem gostava de quem. Mas tinha umas perguntinhas pra se descobrir o gosto dos participantes. Uma delas era filme favorito. Nem é preciso dizer o que o fedelho do Marcelo respondia... Só sei dizer que essa paixão dura até hoje. Mais crescidinho um pouco eu procurei ver os outros 2 filmes que antecederam ao que eu assistira. E claro, quando lançaram os 3 novos episódios (que na verdade se passam cronologicamente ANTES da trilogia anterior) eu não deixei de conferir. Certamente. Assisto a esses filmes evidentemente com olhos e coração de criança. Que se deixa levar pela fantasia. Não fico entrando no mérito se é cinema, arte ou entretenimento. Gosto mesmo é de ver o Darth Vader na sua mais absoluta maldade. Ele, o maior vilão da história do cinema, que jamais riu. Acho um barato. Toda essa coisa de lado negro da força. Que me rende várias metáforas e várias brincadeiras hoje em dia. Serve pra tudo. Isso sem falar da recordação afetiva daquele passeio inesquecível com o pai. Um divertimento de criança. Um episódio da minha infância que eu vou levar para sempre. Hoje, eu tenho um pouquinho de Darth Vader, de lado NEGRO da força. Vejamos se ao final o Marcelo Skywalker vai se redimir e voltar para o lado branco da força.

Que a força esteja com vocês.



Metade Marcelo, metade Darth Vader.

Agradecimentos:
Camila Pavanelli, pela excelente revisão.

3 comentários:

Camila disse...

Que surpresa boa ver um texto assim por aqui. Lindo, uma graça. Deu vontade de brincar de espada laser com o menininho e fazer uma Princesa Léa de massinha. E olha que sou absolutamente alheia a esse universo! Beijos e boa semana.

Marcelo disse...

Camila, valeu pela revisão do texto!!! Se você gostou já posso dizer que escrevo pra caralho!!! (risos)

Camila disse...

Gostei de como você expõe (com o perdão do psicologuês) uma "experiência emocional" tão marcante da sua infância - seu deslumbramento sincero com a espada de laser encontrou ressonância numa lembrança muito antiga minha: o meu próprio deslumbramento com o vestido de casamento da Narizinho ("noooooossa, um vestido que é feito de TODAS AS CORES, que MÁXIMO, como assim?!??" - para você ver como essas impressões são duradouras, até hoje costumo usar muito mais cores espalhadas pelo corpo do que uma criatura normal). E essa emoção encantada e trapalhona é temperada por bons momentos cômicos, que já pressupõem um distanciamento de adulto e que impedem o texto de ficar piegas: as enquetes das meninas, o pedido para que o leitor não se distraia, o absurdo dos estrondos no espaço. Funciona muito bem: ouvimos a voz do menino dialogando com a voz do adulto o tempo todo, e nisso está a maior riqueza desta pequena crônica. Parabéns.