(Gabriel García Márquez dirigindo-se a jornalista Ana Luiza Moulatlet)
Que a veja e toda a nossa imprensa é podre e escrota, isso eu já sabia. Só não podia imaginar que para exercer a sua podridão, seria capaz de abolir completamente as diretrizes mais primárias do mínimo jornalismo. Digo mínimo para não dizer bom. Não sou jornalista. Meus amigos amigos jornalistas que me corrijam, mas imagino que um bom jornalismo é pautado pela imparcialidade, apartidarismo e aquilo que julgo mais importante: pluralismo.
Nossa grande imprensa empresarial não tem nenhuma destas três características. Os grupos dos Marinho, dos Cívita e o grupo Bandeirantes são os maiores inimigos da democracia por exercerem a verdadeira "fabricação de consenso". Criticam, por exemplo, Cuba por não ter liberdade de imprensa, confundindo liberdade de imprensa, com imprensa privada e omitindo que o mesmo (ou pior) ocorre no Brasil. Pois a uniformidade é igualmente anti-democrática.
Hoje, se você lêu ou assistiu a um, leu ou assistiu a todos.
Neste ponto, costumam me cutucar dizendo que a Caros Amigos também não é imparcial. Porém na Caros Amigos eu ainda posso encontrar pluralismo. Encontro, por exemplo, numa mesma edição, ataques ferozes, contundentes e muito bem embasados (ignorados pela imprensa) ao governo do Lula e também análises e críticas positivas. O algoz é o José Arbex. A advogada do diabo é a Marilene Felinto.
Tanto o apontamento das inúmeras falhas e dos acertos não fazem parte da ladainha do PM Partido da Mídia. Não se lê, nem se ouve, nem se assiste em lugar nenhum.
Felizmente agora temos o Le Monde Diplomatique Brasil como mais uma alternativa de leitura no meio de tanto "concordismo". É curioso, aliás, observar um texto da veja sobre o Che, e um texto do Diplô sobre o Che. Um texto da veja sobre Chávez, um texto do Diplô sobre o Chávez.
A veja chega a ser caricata de tão editorialista e tendenciosa. O Diplô presa pela escuta aos estudiosos, pela divergência, traz bibliografia sobre o assunto. Enfim. É outro nível.
Enfim, a veja escutou dois historiadores para escrever a matéria. Ambos americanos.
É possível escrever uma biografia negativa sobre o Che, sim.
Assim como também é possível escrever uma biografia positiva sobre o Edir Macedo.
Como se fez recentemente.
O texto:
Ricardo KauffmannA abordagem da revista Veja sobre o mito e o homem Ernesto Che Guevara, no decorrer dos anos, consiste numa ótima oportunidade de observação dos movimentos da mídia. Sugiro aqui uma visita comparada a duas reportagens da publicação sobre o assunto.
Uma foi matéria de capa há duas edições, intitulada "Che: há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa", assinada pelos jornalistas Diogo Schelp e Duda Teixeira. A outra foi publicada há dez anos, sob o título: "O triunfo final de Che".
É assinada pela então repórter da casa Dorrit Harazim. O texto está disponível atualmente no site da editora Abril na internet, no endereço: http://veja.abril.com.br/090797/p_088.html
Há congruências entre as duas reportagens. Ambas registram aniversários redondos da morte do guerrilheiro. Buscam causas para a projeção mitológica do Che. E fazem referência a algumas mesmas passagens do líder.
Terreno mais vasto, no entanto, é o das incongruências, diferenças de tratamento e visões antagônicas - a respeito do personagem central - que as duas matérias explicitam.
A atual possui caráter predominantemente dissertativo. Não identifica de onde os autores apuraram as informações, o que leva a crer que a matéria foi feita da redação. Parte de tese própria segundo a qual o mito de Che é uma farsa produzida pela "máquina de propaganda marxista", diz o texto. E se destina a comprová-la.
A de 1997 foi apurada na Bolívia e se ocupa, majoritariamente, de ouvir declarações e descrever fatos que testemunha. Parte do acompanhamento da buscas dos ossos enterrados de Che para também refletir sobre a força do maior mito latino-americano.
A Veja de 2007 entrevista seis fontes para a matéria. Todos são cubanos da Flórida, inclusive dois historiadores, um do Instituto da Memória Histórica Cubana de Miami, e o outro da Universidade de Miami.
A reportagem justifica a concentração de fontes: "o regime policialesco de Fidel Castro não permite que aqueles que conviveram com Che e permaneceram em Cuba possam ir além da cinzenta ladainha oficial". Não explica, porém, porque não foram ouvidos observadores internacionais neutros, ou companheiros de Che em campanhas fora da ilha.
Já Dorrit Harazim concentra-se nas fontes que encontra pelo caminho, nas cidades bolivianas onde Che é um ser místico, literalmente adorado como santo.
Diego Schelp e Duda Teixeira expõem diagnósticos certeiros sobre Guevara, na maioria das vezes desacompanhados da análise de qualquer fonte. Eles reduzem as origens da mitificação do argentino a três fatores ligados a alguma espécie de "sorte histórica".
Diego Schelp e Duda Teixeira expõem diagnósticos certeiros sobre Guevara, na maioria das vezes desacompanhados da análise de qualquer fonte. Eles reduzem as origens da mitificação do argentino a três fatores ligados a alguma espécie de "sorte histórica".
São eles: a morte prematura; a ajuda involuntária de seus algozes, que conferiram ao rosto do Che defunto espantosa semelhança com as pinturas barrocas do Cristo morto; e ao contexto favorável, às vésperas dos protestos da geração de 1968.
Já a matéria anterior tem espaço para o contraditório e questões complexas, inalcançáveis por respostas simples. Ouve diversos bolivianos admiradores de Che, povo que, segundo o texto atual, "tinha raiva dele".
Um destes admiradores, ao encontrar um cubano integrante da guerrilha que então vivia na Espanha, pergunta: "Por que vocês começaram a guerrilha antes de conhecerem o terreno e estarem preparados? Mas por que, depois de tudo isso, você não vive em Cuba? - O ex-guerrilheiro ficou quieto", diz trecho de dez anos atrás.
Disparidade ainda mais gritante entre as duas matérias da mesma revista se encontra na adjetivação usada para qualificar Guevara e suas ações. "Che tem seu lugar assegurado na mesma lata de lixo onde a história arremessou há tempos outros teóricos do comunismo"; (...) "sua maníaca necessidade de matar pessoas".
Em 1997, Veja publicava: "Che empolga por ter sido um rebelde com causa, aventureiro e vagabundo, de ar atormentado e ardor revolucionário, mas sobretudo um rebelde capaz de abrir mão de tudo, especialmente do poder".
E mais: "O mito de Guevara (...) ampara-se na simplicidade, (...) e na entrega de sua vida à defesa da solidariedade e justiça social".
Che morreu há 40 anos. Nos últimos dez, nada de relevância decisiva sobre sua história foi revelado. Enquanto seu mito não pára de crescer.
No entanto, como podemos observar, a visão e os procedimentos jornalísticos que a maior e mais influente revista brasileira tem e propaga diante dos fatos mudou radicalmente no período. Sem maiores explicações ou avisos aos seus leitores.
Questão tão complexa ou simples como a da força do mito de Che é: Por que?
Um comentário:
Ler e chorar, no mínimo é o que se deve fazer por tal matéria. O despeito de seus articuladores beira o inverossímil, chegam ao cúmulo histórico de cometerem ofensas pessoais. Li e não gostei, não gostei apenas pelo fato porque o texto em si é da veja, notória publicação de opinião opostas as minhas, não gostaria mesmo se o lê-se em papel higiênico, que é de onde não deveria ter saído tal atrocidade.
Ao texto ser pejorativo, tendencioso e principalmente falso, com fontes pra lá de discutíveis não são novidades nesta publicação, agora achacar assim tão erroneamente um homem de sonhos e conquistas e no mínimo a atitude mais tacanha que eu vi.
Lembro-me de uma passagem no filme a montanha dos Gorilas, não vou fazer pesquisa para este texto recordando o nome da grande cientista, mas lá a pesquisadora se negava a conceder entrevistas a National Geografic, dizendo que não iria fazer diferença aos gorilas ficarem expostos em um consultório dentário, no que prontamente o repórter respondeu: - Fará diferença naqueles consultórios dentários em que o dentista tem uma pata de gorila como cinzeiro. (o que era muito comum na época).
Minha dentista tem a veja exposta pra quem quiser ver, eu não vejo, nego-me! Apenas me pergunto quando este semanário fará uma matéria do tipo, expondo o quanto são ridículos os seres que colocam patas de gorilas como cinzeiros em seus escritórios? Mas me conforto lembrando que estes seres apenas ficaram ecologicamente corretos, e se preocupam com o bem estar da natureza, já ao bicho homem, este merece o desprezo que tem segundo as suas redondas e certeiras opiniões.
Em tempo esta matéria me faz ficar preocupado com um bicho que infelizmente não se encontra em extinção, o papagaio de telejornal.
Em tempo ainda, não li no consultório de minha dentista e nem tão pouco dei meus parcos reais por tal aberração jornalística, li o texto na internet, graças ao meu amigo Marcelão.
Abraços a ti e linda explanação sobre o tema de sua parte.
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