quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Sobrevivendo no Inferno - 10 anos

Poucos que me conhecem sabem ou sequer imaginam que eu goste de um gênero musical marginal para o qual muitos torcem o nariz. Estou falando de rap. Sim, "o Marcelo gosta de rap".

A música negra tem vários galhos que formam uma bela copa, um deles é o rap.
Nascido na Jamaica em meados dos anos 60, o rap é o pé musical da cultura hip-hop alicerçada ainda pelo Grafiti nas artes plásticas e pelo Break na dança. Rhythm And Poetry. Ritmo E Poesia. O canto falado e pouco melódico de seus versos aborda as condições dos negros, a violência e a política, na maioria das vezes, desfavorável à eles. Com esta temática que aflige tantas pessoas em tantos países, o ritmo ganhou o mundo e chegou também no Brasil, em especial nas periferias das grandes cidades. Mais do arte o rap é ativismo.

Gerando pouca discordância, podemos dizer que o criador da Bossa Nova foi o João Gilberto e que seus dois maiores expoentes são Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Analogamente é possível afirmar que o percursor do rap nacional foi o Thaíde, mas que o seu maior expoente é o grupo Racionais MC's. Mano Brown, seu vocalista, começou sua carreira após ler a biografia de Malcom X, líder negro estadosunidense.

O album mais importante do gênero é o Sobrevivendo no Inferno que está completando 10 anos. Sem estar associado a nenhuma gravadora e, com uma distribuição precária, o quarto album dos Racionais alcançou a marca de meio milhão de cópias vendidas. Esse número atraiu a atenção das grandes gravadoras e das emissoras de televisão. Avessos a exposição e ao uso que a grande mídia faria de sua imagem o grupo deixou tanto uma quanto outra a ver navios.

Em 1998 o grupo participou de um programa do horário eleitoral gratuito do então candidato Lula. Seu opositor FHC-FMI-USA, sim aquele que dizem que era sociólogo, comentou que o seu adversário chamara marginais para apoiar sua campanha. Esta é a visão que a direita e setores mais abastados da sociedade tem sobre o povo que vive na periferia. Como muito bem disse Max Gonzaga em Classe Média:

Mas eu "to nem ai"
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não "to nem aqui"
Se morre gente ou tem enchente em Itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Uma ocasião eu fui visitar a obra da casa que estava em construção no bairro da Saúde e ouvi o servente de pedreiro cantando a letra inteira da faixa 3 (com 8 minutos de duração - um pequeno monólogo), chamada Capítulo 4, Versículo 3 (4o. disco, faixa 3) que começa com a leitura de algumas estatísticas tristemente verdadeiras na época:

1. 60% jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial.
2. A cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras.
3. Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros
4. A cada 4 horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo.

De lá pra cá pouca coisa mudou. O Jardim Ângela deixou de ocupar o primeiro lugar do ranking de bairros mais violentos do país. Não por nenhuma ação do poder público, mas sim pelo engajamento de suas comunidades. Este último, estimulado em parte pela conscientização provocada pelo movimento rap.

O Vlad é um amigo com quem eu sempre debato. Tentei introduzí-lo na cultura rap. De início ele foi refratário, como é de praxe em tudo que lhe apresento. Hoje ele também é um admirador.

Roda Viva
Na segunda-feira, dia 24 de setembro, o programa Roda Viva da TV Cultura teve no seu centro o líder dos Racinais MC's, Mano Brown. Foi a maior audiência do programa este ano. Ficando atrás apenas da Globo e Record. A entrevista duplamente morna. Pelo lado do entrevistado que se mostrou visivelmente descortável, pois sempre foi avesso à entrevistas. Seu vocabulário e modo de falar simples contrastavam com os entrevistadores, que exibiram sua pouca intimidade com o povo da periferia. Foram eles:

Maria Rita Kehl, psicanalista - gosto dela. A mais empolgada com a presença do rapper. Tem uma visão da dimensão e importância sócio-antropológica do rap.

Paulo Lins, escritor, professor de literatura e roteirista de cinema. O único que conhece a vida na perifeira.

Renato Lombardi, jornalista da TV Cultura. Pouco falou. Como trabalha com noticiário policial. Deve considerar rap coisa de bandido.

Ricardo Franca Cruz, editor-chefe da revista Rolling Stone Brasil. Quis demonstrar que conhecia. Ficou devendo.

José Nêumanne, editorialista do Jornal da Tarde e comentarista da rádio Jovem Pan e do SBT, Escroto e reacionário de plantão, levou "orelhada" (lição de moral) do entrevistado.

Paulo Lima, editor revista Trip. Sua ausência não teria sido notada.

Durante a entrevista o rapper comentou que quando viu o CEU construído na gestão Marta Suplicy lembrou-se da música Fim de Semana no Parque:

Olha só aquele clube que da hora
Olha aquela quadra, olha aquele campo, olha
Olha quanta gente
Tem sorveteria, cinema, piscina quente
...
Tem corrida de kart dá pra ver
É igualzinho o que eu vi ontem na TV
Olha só aquele clube que da hora
Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora
Só que desta vez, o pretinho podia entrar. Seu filho inclusive, é usuário e aluno do CEU. Ele demonstrou seu inconformismo com as pessoas do bairro que deixaram de reeleger a ex-prefeita por motivos frívolos, como exemplo, a sua separação e posterior segundo casamento com um argentino. Justamente essas pessoas é que foram beneficiados por sua gestão no seu entendimento.

Diário
A música mais famosa de Sobrevivendo no Inferno é Diário de Um Detento, que retrata a vida dos presidiários e o Massacre do Carandiru ocorrido em 2 de outubro de 1992. Foi escrita pelo ex-detento Jocenir Prado que sobreviveu ao massacre e o narrou em versos:

Fleury e sua gangue
Vão nadar numa piscina de sangue
Mas quem vai acreditar no meu depoimento ?
Dia três de outubro, diário de um detento
Ou ainda com um pouco mais de lirismo por Caetano Veloso e Gilberto Gil em Haiti:

E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
O video clipe, que ganhou inúmeros prémios no Video Music Brasil (VMB) da MTV, sua letra e o Livro do Dráuzio Varela, Estação Carandiru, compõe uma visão realista e humana do que é ser um presidiário no nosso país.



Por fim mais um trechinho que me lembrei de citar:

Eu me formei suspeito profissional
bacharel pós-graduado em "tomar geral"

Eu tenho um manual com os lugares, horários, de como "dar perdido".
Ai, caralho...

"prefixo da placa é MY, sentido Jaçanã, Jardim Ebron..."

Quem é preto como eu já tá ligado qual é
Nota Fiscal, RG, polícia no pé:

"escuta aqui: o primo do cunhado do meu genro é mestiço,
racismo não existe, comigo não tem disso, é pra sua segurança"

Falou, falou, deixa pra lá.
Vou escolher em qual mentira vou acreditar...


(Qual mentira vou acreditar)

2 comentários:

Vladimir Ferrigato disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vladimir Ferrigato disse...

Bela explanação meu amiguinho, é notável seu conhecimento no assunto, e mais do que isto, sua estrema sensibilidade ao discernir o caminho do bem. Lembrou-me porque de fato não devemos ter medo do arco-íris!